Taxa das Blusinhas: estudo confirma alta de preços e zero geração de empregos no Brasil
A chamada “Taxa das Blusinhas”, que impôs alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, falhou em sua principal promessa: gerar empregos e fortalecer a indústria nacional. Um estudo recém-divulgado mostra que a medida encareceu produtos no varejo brasileiro acima da inflação e penalizou principalmente consumidores das classes C, D e E. Diante do desgaste político, o governo Lula já reabriu a discussão sobre revogar o tributo às vésperas das eleições.
O que diz o estudo
O levantamento foi conduzido pela consultoria Global Intelligence and Analytics, encomendado pela Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec). O relatório foi assinado pelo professor de Economia da FGV Lucas Ferraz, com participação da doutora em Direito Internacional Fernanda Kotzias e dos economistas Alan Leal e Lucas Mariano.
Os principais achados:
- Cosméticos subiram 17% em 12 meses, bijuterias 16% e papelaria 13%;
- Calçados (9%) e vestuário (7,1%) também tiveram alta acima da inflação oficial do período (5,23%);
- Demanda por importados de baixo valor caiu 56% em comparação ao cenário sem a cobrança;
- 68% dos consumidores das plataformas internacionais pertencem às classes C, D e E;
- Não houve diferença significativa nos níveis de emprego ou salários entre setores protegidos e demais segmentos.
Atualização: além do estudo da Global Intelligence and Analytics, um levantamento anterior da LCA Consultores, também encomendado pela Amobitec e divulgado em outubro de 2025, já apontava conclusões semelhantes — sem impacto mensurável na geração de empregos e penalização das famílias de baixa renda.
Análise do programa Os Pingos nos Is
O programa Os Pingos nos Is, da Jovem Pan, dedicou um bloco a discutir os resultados do estudo. Os comentaristas Bruno Musa, Cristiano Beraldo e Luís Felipe Dávila analisaram os bastidores políticos e econômicos da medida.
Como funciona a Taxa das Blusinhas
Instituída pelo Artigo 32 da Lei nº 14.902/2024, a tributação entrou em vigor em agosto daquele ano. A norma estabeleceu duas faixas:
| Valor da compra | Alíquota de Imposto de Importação | Observação |
|---|---|---|
| Até US$ 50 | 20% | Anteriormente isento via Remessa Conforme |
| Acima de US$ 50 | 60% | Com desconto fixo de US$ 20 |
Apesar do apelido, a tributação não se restringe a roupas. Atinge eletrônicos, utensílios domésticos, perfumaria, brinquedos e qualquer item adquirido em plataformas internacionais como Shein, Shopee, AliExpress e Temu.
Os efeitos práticos no emprego e nos salários
Um dos pontos centrais do debate era a promessa de geração de vagas. Os números revelados pelo estudo da FGV/Global Intelligence and Analytics, no entanto, mostram efeito praticamente nulo:
- Salário médio em eletrônicos subiu R$ 698, mas em brinquedos caiu R$ 930;
- O setor de tecnologia ganhou 1.533 trabalhadores, enquanto o dermatológico perdeu mais de 2.800;
- O maior avanço salarial percentual foi no vestuário, com apenas 0,3%;
- A maior queda foi em papelaria, com -0,98%;
- Em vagas, eletrônicos cresceu 0,2% e papelaria recuou 0,7%.
Os autores concluem que, diante de variações tão modestas, a medida não cumpriu o objetivo declarado de fortalecer empregos no varejo brasileiro. Esse cenário reforça o que já discutimos sobre o papel das pequenas empresas no Brasil — que dependem de competitividade real, e não de barreiras artificiais. Veja mais em como as pequenas empresas impulsionam a economia do Brasil.
O argumento dos especialistas
No programa Os Pingos nos Is, o economista Bruno Musa resumiu o problema do protecionismo: “Quando você cria privilégios para supostamente proteger a indústria nacional, você prejudica o consumidor. A indústria não fica competitiva, se acostuma com subsídios, e quando o mercado tem que abrir, ela está sucateada.”
Já Luís Felipe Dávila destacou que a produtividade brasileira hoje é menor que a de Cuba — segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) — e atribuiu parte do atraso ao “excesso de nacionalismo econômico” que historicamente empobrece o país.
Para Cristiano Beraldo, o problema é mais amplo: a Taxa das Blusinhas seria sintoma de um governo “sem projeto perene”, que age por impulsos eleitorais, sem soluções de médio e longo prazo.
Governo Lula reavalia a medida
Diante do desgaste político, o Palácio do Planalto já discute revogar o imposto. Pesquisa da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg mostra que 62% dos brasileiros consideram a taxa um erro, enquanto apenas 30% a apoiam.
A discussão é liderada pela ala política do governo, especialmente pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, com apoio de setores da Casa Civil e do MDIC. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, declarou que o impacto fiscal de uma eventual revogação seria limitado.
Atualização: o vídeo do canal Os Pingos nos Is menciona arrecadação de R$ 35,5 bilhões, número que diverge dos dados oficiais. Segundo a Receita Federal, o imposto de importação sobre encomendas internacionais arrecadou R$ 5 bilhões em 2025 e R$ 2,88 bilhões em 2024 — recordes da série histórica, mas valores muito inferiores ao citado no programa. A ministra Simone Tebet estimou em cerca de R$ 2 bilhões o impacto direto da Taxa das Blusinhas no último ano.
Os caminhos para a revogação
Como a tributação foi aprovada em lei, o caminho mais provável para revogá-la seria por Medida Provisória, conforme apuração da CBN e da GloboNews. O governo, no entanto, enfrenta resistências:
- Ministério da Fazenda: teme perda de arrecadação e pressões setoriais;
- Varejo nacional organizado: a entidade IDV, que reúne os maiores varejistas e têxteis, considera a revogação um “grave retrocesso”;
- Necessidade de compensação: pela LRF, o governo precisa apresentar nova fonte de receita ou corte de despesa equivalente.
Uma das alternativas estudadas é usar parte do aumento de receita esperado com dividendos da Petrobras (estimados em R$ 54,1 bilhões) para bancar a extinção do tributo.
O que muda para o consumidor brasileiro
Independentemente da decisão final do governo, o estudo evidencia uma lição econômica clara: barreiras tarifárias não substituem competitividade. Para o consumidor das classes C, D e E, que perdeu acesso a produtos mais baratos importados, a conta fica óbvia — passou a pagar mais caro nos similares nacionais sem ganhar empregos ou salários melhores.
Para empreendedores e empresas brasileiras, o cenário reforça a importância de buscar produtividade, inovação e valor agregado — algo que setores como o agronegócio brasileiro, citado no programa, conseguiram justamente porque cresceram em ambiente competitivo.
📌 Como se proteger do impacto no orçamento
Enquanto a discussão política avança, o consumidor pode ajustar sua estratégia: comparar preços antes de comprar, considerar opções nacionais quando o preço final ficar próximo dos importados, e investir em educação financeira desde cedo para enfrentar mudanças tributárias com mais segurança. Compartilhe esta análise com quem precisa entender como a política tributária afeta o bolso de cada família.
Conclusão
A Taxa das Blusinhas se transformou no símbolo de um modelo de política econômica que insiste em fórmulas antigas — protecionismo, reserva de mercado e taxação de importados como atalho para desenvolvimento industrial. O estudo da Global Intelligence and Analytics, somado a pesquisas anteriores da LCA Consultores, mostra que o resultado prático foi o oposto do prometido: preços mais altos, demanda reprimida e nenhuma geração relevante de empregos.
O movimento do governo Lula em direção à revogação às vésperas das eleições é, ele próprio, uma admissão tácita do equívoco. Resta saber se a correção virá por medida provisória, projeto de lei ou se ficará apenas no campo retórico até a campanha. Para o consumidor brasileiro, especialmente o de menor renda, o recado é amargo: pagou mais por menos durante quase dois anos, sem nenhum ganho compensatório no mercado de trabalho.
📚 Referências
- InfoMoney — Taxa das Blusinhas não criou empregos e pesou no bolso dos brasileiros
- InfoMoney — Planalto considera recuo da Taxa das Blusinhas com olho nas eleições
- O Globo — Debate sobre fim da Taxa das Blusinhas esquenta no Planalto
- CBN — Governo estuda rever Taxa das Blusinhas para aumentar popularidade
- Estado de Minas — Alternativas para bancar a extinção da Taxa das Blusinhas
- Istoé Negócios — Governo avalia revogar Taxa das Blusinhas às vésperas da eleição







