Do supermercado ao Congresso: a viagem improvável da cola de rato pela política brasileira
Em abril de 2026, a deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) apresentou um projeto de lei para proibir em todo o território nacional a venda e o uso das chamadas “fitas cola-rato” — aquelas armadilhas adesivas vendidas em supermercados por menos de R$ 10 e presentes em milhões de lares brasileiros. A proposta mistura argumentos de bem-estar animal com saúde pública, mas virou um campo minado político: de um lado, quem acha o projeto legítimo e necessário; do outro, quem questiona se um país com os problemas do Brasil deveria estar debatendo isso enquanto outras urgências ficam na gaveta.
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🎬 O Canal Meteoro Brasil Trouxe o Debate — Assista ao Trecho
O canal Meteoro Brasil cobriu a polêmica no dia 17 de abril de 2026, com as apresentadoras Dayane e Sofia debatendo os dois lados da proposta — com honestidade intelectual rara: reconhecendo os méritos do projeto sem deixar de questionar o contexto em que ele surge.
O Que Diz o Projeto de Lei
O projeto apresentado pela deputada Duda Salabert em abril de 2026 propõe a proibição da comercialização e do uso de armadilhas adesivas para roedores — popularmente conhecidas como “cola de rato” ou “fita cola-rato” — em todo o Brasil.
Até o momento da publicação deste artigo, o projeto ainda não possui número oficial publicado na íntegra no portal da Câmara dos Deputados, mas foi amplamente divulgado pela própria parlamentar em suas redes sociais a partir do dia 13 de abril de 2026 e coberto por veículos como o Poder360 e Últimas Notícias.
A proposta integra uma linha de atuação consistente da deputada em temas de bem-estar animal e saúde pública. Em 2025, ela também apresentou o PL 2.627/2025, que instituía a redução progressiva da exportação de animais vivos para abate — demonstrando que o tema do sofrimento animal é uma pauta recorrente e estruturada em seu mandato, não um capricho isolado.
O projeto atual sobre a cola-rato se baseia em três pilares principais:
- Crueldade e sofrimento prolongado dos animais capturados
- Riscos sanitários gerados pelo método
- Impacto sobre a fauna silvestre e animais domésticos
Por Que Ela Existe — O Argumento Oficial
A deputada foi direta em seu vídeo nas redes sociais: a armadilha adesiva é, na visão dela, um método ultrapassado, violento e ineficaz do ponto de vista sanitário. E os argumentos têm embasamento técnico que merece ser levado a sério.
Veja o que sustenta a proposta:
- Sofrimento prolongado: o rato fica preso vivo por horas ou até dias, se debate, arranca a própria pele e morre por exaustão, fome ou desidratação.
- Foco de contaminação: enquanto agoniza, o animal continua urinando e defecando no local — justamente o que se queria evitar ao colocar a armadilha.
- Risco de leptospirose: segundo o Ministério da Saúde, a leptospirose é transmitida pela urina de ratos e pode matar. A taxa de letalidade nas formas graves chega a 40%. Uma armadilha que concentra a urina do animal no ambiente doméstico é, literalmente, um risco biológico.
- Indiscriminação de espécies: a fita não escolhe o que prende. Aves, lagartixas, filhotes de gato e outros pequenos animais da fauna silvestre ficam presos com frequência.
- Risco para animais domésticos: cães e gatos frequentemente ficam presos na cola. A remoção normalmente exige solventes que podem intoxicar o animal.
- A causa raiz é outra: segundo a deputada, quando uma cidade está tomada por ratos, a culpa é do poder público — falhas no saneamento básico, coleta de lixo e urbanização. A cola de rato trata o sintoma sem resolver o problema.
Este último ponto é, de longe, o mais importante — e o mais ignorado no calor do debate nas redes sociais. O Brasil tem mais de 35 milhões de pessoas sem acesso a esgotamento sanitário adequado. Enquanto isso persiste, ratos vão continuar aparecendo.
O Que a População Pensa — A Crítica ao Projeto
A repercussão nas redes sociais foi, para dizer o mínimo, acalorada. E não apenas da “extrema direita”, como apontou o canal Meteoro Brasil. Pessoas sem filiação política clara também questionaram a proposta — e alguns dos argumentos merecem atenção.
As críticas mais recorrentes foram:
- “Deputada ganha R$ 39 mil e quer proibir cola de rato”: o argumento da desconexão entre o salário parlamentar e a realidade das periferias. Para quem não tem R$ 200 para chamar uma empresa de dedetização, a cola de rato é o único recurso acessível.
- “Não tem nada melhor para fazer”: a crítica clássica à pauta considerada menor. O Meteoro Brasil rebateu esse argumento com razão: Duda Salabert tem um histórico robusto de projetos. Ter um projeto sobre bem-estar animal não significa ausência de projetos mais “sérios”.
- “E agora como mato o rato?”: a pergunta prática de quem vive em comunidades com infestação de roedores e não tem alternativa de baixo custo. É uma crítica legítima — e o projeto precisa responder a ela.
- “Vão proibir e não vão resolver o saneamento”: talvez a crítica mais cirúrgica. Proibir o produto sem oferecer uma alternativa de custo equivalente e alcance similar é deixar as populações mais vulneráveis sem saída.
- “Mais preocupada com rato do que com a violência”: esse argumento é populista, mas não é de todo sem sentido num país onde o Congresso frequentemente empaca pautas de segurança pública enquanto avança em questões de menor impacto imediato.
É aqui que a crítica popular tem razão — não por atacar o mérito do projeto, mas por apontar a ordem de prioridades de um Legislativo que frequentemente se perde em microdetalhes enquanto questões estruturais ficam sem solução. Aliás, vale lembrar que o próprio Congresso brasileiro é apontado como um dos mais caros do mundo — o que torna ainda mais compreensível a frustração popular quando o debate político se volta para um produto de R$ 7 vendido em qualquer mercadinho.
Os Impactos Reais na Vida das Pessoas
Aqui o humor precisa dar lugar à realidade. Porque a cola de rato não é um produto de nicho — ela está nas periferias, nas favelas, nas pequenas casas de bairros sem saneamento, nos fundos de quintal onde o esgoto corre a céu aberto.
Se o projeto for aprovado da forma como está, sem uma política pública substituta robusta, quem vai sofrer não são os moradores de condomínios de alto padrão que chamam empresas de dedetização. Quem vai sofrer são:
- Moradores de comunidades sem acesso a saneamento básico, onde a infestação de ratos é um problema estrutural e constante
- Pequenos comerciantes — padarias, restaurantes populares, armazéns — que usam a cola como controle de praga por não terem orçamento para serviços especializados
- Trabalhadores rurais que lidam com pragas em armazéns e galpões
- Idosos que vivem sozinhos em casas antigas e não têm mobilidade para buscar alternativas mais complexas
- Crianças que vivem em ambientes com alta presença de roedores e risco real de leptospirose
A leptospirose mata. Segundo o Ministério da Saúde, a doença tem incidência elevada em regiões com precária infraestrutura sanitária — exatamente onde a cola de rato é mais usada. O risco de transmissão em uma armadilha onde o animal urina durante horas é real e cientificamente verificável.
Mas o risco de deixar comunidades sem nenhuma ferramenta acessível de controle de pragas também é real. Esse é o dilema que o projeto precisa enfrentar — e que até agora ninguém respondeu com clareza.
A questão sanitária nas periferias brasileiras é tão grave que até o tema das enchentes e a falta de infraestrutura urbana se conecta diretamente ao problema de proliferação de roedores — fenômeno que volta à tona a cada temporada de chuvas.
Existe Saída? O Que Pode Mudar
O projeto ainda está em fase inicial de tramitação e precisa passar por comissões antes de chegar ao plenário. Muito pode mudar — inclusive, para melhor.
As principais saídas para que a proposta faça sentido na prática:
- Política pública substituta obrigatória: o projeto deveria vir acompanhado de um programa de distribuição gratuita ou subsidiada de armadilhas mecânicas para populações de baixa renda
- Prazo de transição adequado: uma proibição imediata seria impraticável. Um prazo de 2 a 3 anos para adaptação do mercado e das políticas municipais seria mais razoável
- Vinculação com metas de saneamento: a proibição da cola-rato sem avanço no saneamento básico é tratar o sintoma sem curar a doença
- Consulta técnica com especialistas em controle de vetores: como bem observou o canal Meteoro Brasil, cada método de controle tem suas vantagens e desvantagens. Venenos matam aves de rapina e gatos que comem os ratos envenenados. Armadilhas mecânicas têm custo maior. O debate precisa de ciência, não apenas de emoção
- Participação popular: assinar petições como a que já circula no Change.org com mais de 10 mil assinaturas em favor da proibição é uma forma de pressionar o debate na direção certa
O que o cidadão pode fazer agora:
- Acompanhar a tramitação do projeto no portal da Câmara dos Deputados
- Entrar em contato com seu deputado federal para manifestar opinião
- Cobrar das prefeituras políticas de controle de vetores gratuitas e acessíveis
- Exigir que qualquer proibição venha acompanhada de alternativas viáveis para a população de baixa renda
😅 Já Que Estamos Aqui… Outras Leis Que Fariam a Cola de Rato Parecer Normal
O Brasil não está sozinho no mundo das leis curiosas. Para aquecer o coração (ou causar desespero), uma lista de outras regulamentações que provam que o absurdo não tem fronteiras:
- Reino Unido: é ilegal entrar no Parlamento britânico vestindo armadura. A lei existe desde o século XIV e nunca foi revogada.
- Singapura: mascar chiclete é proibido desde 1992. A multa pode chegar a S$ 100.000. A cidade é limpa, isso é fato — mas você não vai a lugar nenhum mastigando.
- França: é proibido nomear um porco de “Napoleão”. A lei protege a honra do imperador — mesmo que ele já esteja morto há dois séculos.
- Brasil — Lei do Silêncio: em alguns municípios brasileiros, buzinar em frente a hospitais rende multa. A lei faz sentido. O problema é que ninguém cumpre e ninguém multa.
- Austrália (Queensland): é ilegal possuir mais de 50 kg de batata sem licença especial. A lei foi criada para proteger produtores locais — e ficou por lá, esquecida no código legislativo australiano.
Falando em burocracia e leis que parecem ter saído de um universo paralelo, o Brasil tem uma farta coleção de normas que regulam detalhes absurdos enquanto problemas estruturais seguem sem solução.
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E você, Leitor? Acha que a proibição da cola de rato é uma pauta legítima e necessária — ou mais um exemplo de Legislativo que debate o acessório enquanto o essencial espera? Você já usou cola de rato? Tem alguma alternativa que funcione e seja acessível para a população de baixa renda?
Comenta aqui embaixo e compartilhe este artigo. E se você conhece outras leis ou projetos absurdos — ou legítimos que parecem absurdos — manda a sugestão para a gente. A fila é longa e o Brasil nunca decepciona.
Conclusão: Entre o Rato e a Rochedo
O projeto de Duda Salabert não é absurdo no mérito. A cola de rato causa sofrimento real, cria focos de contaminação, mata animais que não eram o alvo e é um método que países mais desenvolvidos já abandonaram. Esses são fatos verificáveis, não opinião política.
O problema não está no projeto em si — está no contexto. Num país onde políticas públicas básicas falham sistematicamente, proibir o único instrumento acessível de controle de pragas para a população mais pobre, sem oferecer uma alternativa equivalente, é trocar um problema por outro. É tirar a muleta de quem ainda não aprendeu a andar.
A pergunta que o Congresso deveria responder antes de votar qualquer coisa é simples e brutalmente honesta: se proibirmos a cola de rato amanhã, o que o morador de uma favela de Manaus, de São Paulo ou de Recife vai usar para combater a infestação que o poder público criou ao não oferecer saneamento básico? Enquanto essa pergunta não tiver resposta, o projeto — por melhor que seja a intenção — pode acabar punindo justamente quem mais precisa de proteção.
Porque no Brasil, a gente tem uma habilidade peculiar: criar leis para os efeitos e ignorar as causas. E aí, quando a causa explode, a culpa é sempre de quem tentou fazer alguma coisa com o que tinha ao alcance das mãos — mesmo que fosse apenas uma fita adesiva de R$ 7.
❓ Perguntas Frequentes sobre o Projeto de Proibição da Cola de Rato
O projeto de lei de Duda Salabert para proibir a cola de rato já foi aprovado?
Não. Em abril de 2026, o projeto ainda estava em fase inicial de tramitação na Câmara dos Deputados, após ser apresentado pela deputada. Ele precisa passar por comissões temáticas e pelo plenário antes de ter qualquer validade legal.
A cola de rato realmente faz mal à saúde pública?
Sim, há evidências técnicas que sustentam essa preocupação. O animal preso na armadilha continua urinando e defecando no local, o que pode concentrar bactérias como a Leptospira — causadora da leptospirose, doença com taxa de letalidade de até 40% nos casos graves, segundo o Ministério da Saúde.
Quais animais além de ratos podem ser capturados pela cola de rato?
As armadilhas adesivas não distinguem espécies. Aves, lagartixas, filhotes de gato, pequenos mamíferos da fauna silvestre e até cães e gatos adultos são frequentemente encontrados presos nessas armadilhas. A remoção muitas vezes exige solventes que podem intoxicar o animal.
Se a cola de rato for proibida, o que usar no lugar?
As alternativas existem: armadilhas mecânicas (do tipo gaiola ou ratoeira tradicional de mola), serviços de dedetização profissional e controle integrado de pragas. O problema é que todas essas opções têm custo maior do que a cola de rato, o que representa uma barreira real para populações de baixa renda.
Outros países já proibiram a cola de rato?
Sim. Países como o Reino Unido, Alemanha e parte dos Estados Unidos já restringiram ou proibiram o uso de armadilhas adesivas para roedores, baseando-se em legislações de bem-estar animal. No Brasil, ainda não há regulamentação federal sobre o tema.
O uso da cola de rato é considerado crime no Brasil atualmente?
Não. Atualmente, a venda e o uso da cola de rato são completamente legais no Brasil. O projeto de Duda Salabert é apenas uma proposta legislativa, sem força de lei enquanto não for aprovada e sancionada.
A leptospirose tem relação com a presença de ratos?
Diretamente. A leptospirose é transmitida pela urina de ratos infectados pela bactéria Leptospira. A doença é endêmica em regiões com saneamento precário e alta infestação de roedores — e sua ocorrência aumenta significativamente em períodos de enchentes, quando a urina dos animais se espalha pelo ambiente.
Duda Salabert tem outros projetos além da proibição da cola de rato?
Sim. A deputada tem um histórico extenso de projetos, incluindo o PL 2.627/2025, que propõe a redução progressiva da exportação de animais vivos para abate. A pauta de bem-estar animal é uma linha consistente de seu mandato, não um episódio isolado.
📚 Referências
- Poder360 — Duda Salabert propõe proibir “fita cola-rato” no Brasil (18 abr. 2026)
- Últimas Notícias — Deputada mineira apresenta projeto para proibir armadilhas “cola rato” em todo o país
- Realidade do Povo — Coitado do rato! Deputada Duda Salabert cria projeto de lei para proibir fita cola-rato no Brasil
- Ministério da Saúde — Leptospirose: o que é e como prevenir
- Senado Federal — e-Cidadania: Ideia Legislativa sobre Fim da Comercialização do Cola Rato
- Change.org — Petição: Pelo fim da comercialização da ratoeira adesiva “cola rato” (mais de 10 mil assinaturas)
- Câmara dos Deputados — PL 2.627/2025 (Duda Salabert — Exportação de Animais Vivos)
- Meteoro Brasil — Deputada Duda Salabert Quer Proibir Cola de Rato e Gera Polêmica | Plantão (17 abr. 2026)







