Comerciantes com décadas de história no local denunciam que nunca puderam se regularizar — e agora foram removidos por isso
A Prefeitura de São Paulo removeu, em fevereiro de 2026, 21 dos 25 food trucks que operavam há décadas na Praça Silvio Romero, no Tatuapé, zona leste da capital. A ação, motivada pela ausência de licenças, esvaziou um dos polos gastronômicos mais tradicionais da cidade e deixou famílias de comerciantes sem renda — enquanto a gestão municipal promete incluir o endereço no sistema Tô Legal ainda no primeiro semestre de 2026.
O “Despejo” que Esvaziou a Praça do Lanche
Por décadas, a Praça Silvio Romero foi sinônimo de comida de rua na zona leste de São Paulo. O famoso “dogão do Tatuapé” virou referência afetiva para gerações de moradores. Havia vendedores que atuavam no local há quase 40 anos — alguns herdaram os pontos dos próprios pais.
Tudo mudou a partir do dia 9 de fevereiro de 2026. Uma operação de fiscalização da Subprefeitura Mooca recolheu os veículos sem aviso prévio. De 25 food trucks, apenas quatro permaneceram. Os que ficaram tiveram o horário de funcionamento reduzido: de até as 3h da manhã para o encerramento obrigatório à meia-noite.
O impacto foi imediato:
- A praça ficou escura e deserta após as 22h
- Relatos de aumento de assaltos na região foram registrados pelos próprios comerciantes
- Frequentadores que chegavam após a balada encontraram a praça fechada
- Crianças e famílias que usavam o espaço à noite deixaram de frequentá-lo
“Antes a praça era bem movimentada, tinha muita vida, era abarrotada de gente. Com a retirada dos carrinhos, ela perdeu a vida — morreu por completo”, desabafou Roselena, moradora que frequenta o local desde os anos 1980, em depoimento ao canal Metrópoles.
Veja o Relato Completo: Canal Metrópoles Mostra a Realidade dos Comerciantes
A reportagem do canal Metrópoles no YouTube registrou os depoimentos de vendedores, frequentadores e moradores afetados pela ação da prefeitura. Assista:
Informalidade por Necessidade, Não por Escolha
O argumento da prefeitura foi claro: os food trucks não possuíam licença para operar no espaço público. Mas os comerciantes contestam a narrativa com um ponto central — nunca houve como se regularizar ali.
Segundo Erika Barros, vendedora que trabalhava há cinco anos no local e teve seu carro recolhido na operação, o sistema Tô Legal — programa criado pela Prefeitura de São Paulo em 2019 para desburocratizar o licenciamento ambulante — simplesmente bloqueava o cadastro para o endereço da Praça Silvio Romero.
“O último termo de permissão de uso de vias públicas aberto aqui na praça foi em 2013”, afirmou Erika à reportagem do Metrópoles.
Essa situação não é isolada. Um estudo publicado em março de 2026 pela organização internacional Wiego revelou que o sistema Tô Legal bloqueia o cadastro de ambulantes justamente nos locais de maior circulação e renda da cidade — como Brás, Rua 25 de Março e outros polos populares. Segundo a pesquisa, São Paulo conta com 5.914 autorizações vigentes para comércio de rua, mas mantém travadas as áreas mais estratégicas para trabalhadores informais.
Os comerciantes relatam que tentaram se regularizar inúmeras vezes, participaram de reuniões em subprefeituras e nunca obtiveram um caminho concreto. “A gente não escolhe trabalhar na informalidade por querer, a gente escolhe por necessidade”, disse um dos vendedores ao canal Metrópoles.
O Problema do Chamamento Público: Quem Vai Disputar as Vagas?
A prefeitura indicou, em um primeiro momento, que realizaria um chamamento público para regularizar o comércio na praça. A proposta, porém, gerou indignação entre os comerciantes históricos do local.
O motivo é simples: um chamamento público é aberto a qualquer pessoa de São Paulo. Isso significa que um vendedor com 30 anos de história na Praça Silvio Romero disputaria o mesmo espaço em igualdade de condições com alguém que nunca pisou no Tatuapé.
“A gente estaria disputando uma vaga de 30 anos aqui com uma pessoa que tem um carro e quer trabalhar. Isso seria mascarar uma resolução, não resolver o problema”, criticou um dos comerciantes no vídeo.
A resposta definitiva da prefeitura, divulgada em nota ao Metrópoles, foi diferente: a gestão municipal informou que o sistema Tô Legal passará por atualização para incluir a Praça Silvio Romero entre as áreas disponíveis para emissão de portaria de autorização. A alteração estava prevista para o primeiro semestre de 2026, com permissões de até 90 dias, renováveis, para comércio no local.
Impacto Social e Econômico: Mais do que Comida de Rua
O polo gastronômico da Praça Silvio Romero nunca foi apenas sobre lanches. Para moradores e especialistas em espaço urbano, a presença dos food trucks cumpria funções que vão muito além da alimentação:
| Função | Impacto da Remoção |
|---|---|
| Geração de renda familiar | Dezenas de famílias sem sustento desde 9 de fevereiro |
| Segurança urbana passiva | Praça escura e relatos de aumento de assaltos |
| Lazer noturno comunitário | Famílias e crianças deixaram de frequentar o espaço à noite |
| Economia local | Bancas e comércios do entorno sentiram queda no movimento |
| Identidade cultural do bairro | Perda de referência afetiva de décadas |
“A praça está escura. A gente soube que houve aumento de assaltos. Quando a gente está aqui, isso não acontece”, alertou Erika Barros, reforçando o papel dos comerciantes como guardiões informais do espaço público.
Sem alternativa imediata, parte dos vendedores recorreu ao delivery por aplicativos. “Outros estão fazendo iFood com bicicleta para não parar”, relatou um comerciante. A maioria, porém, aguarda sem garantias.
Tô Legal: O Programa que Deveria Resolver, Mas Também Bloqueia
O Tô Legal foi lançado em 2019 com a promessa de simplificar o licenciamento do comércio ambulante em São Paulo — processo que, segundo a prefeitura, poderia ser concluído em apenas quatro dias de forma digital.
Na prática, no entanto, o programa apresenta lacunas graves:
- Áreas bloqueadas: endereços de alta circulação popular frequentemente não aparecem como disponíveis no sistema
- Licenças temporárias: autorizações de até 90 dias geram instabilidade para trabalhadores que dependem da renda contínua
- Defasagem de atualização: a Praça Silvio Romero estava fora do sistema desde pelo menos 2013
O problema foi debatido publicamente em audiência na Câmara Municipal de São Paulo em junho de 2025, onde comerciantes e pesquisadores apontaram que o programa, apesar de bem-intencionado, mantém na informalidade justamente quem mais precisa de regularização. O vereador Alessandro Guedes (PT) convocou a audiência para ouvir denúncias e sugestões de melhoria ao sistema.
A Praça Vai Voltar a Ser a Praça?
A promessa da prefeitura de incluir a Praça Silvio Romero no sistema Tô Legal até o primeiro semestre de 2026 é um passo, mas não uma garantia. Os comerciantes históricos permanecem sem data para retornar e sem segurança de que terão prioridade nas vagas que ajudaram a construir ao longo de décadas.
“Uma luta de uma vida inteira corre o risco de ir por água abaixo”, resumiu um dos vendedores, cujo ponto foi herdado após a morte do pai.
O caso da Praça Silvio Romero expõe uma tensão urbana que não é exclusiva do Tatuapé: a dificuldade de conciliar a necessidade de ordenamento do espaço público com a realidade de trabalhadores que construíram sua vida inteira em torno de uma atividade que o poder público nunca conseguiu — ou quis — regularizar a tempo.
Conclusão
O esvaziamento da Praça Silvio Romero é um retrato fiel do impasse crônico entre fiscalização, informalidade e ausência de políticas públicas efetivas para o comércio de rua em São Paulo. Comerciantes que queriam se regularizar não tinham como fazê-lo. A prefeitura que aplicou a fiscalização agora corre para incluir o endereço no sistema que deveria ter resolvido o problema anos atrás.
Enquanto isso, a praça fica mais vazia, mais escura e menos segura — e famílias inteiras aguardam uma solução que ainda não tem data confirmada.
Acompanhe as atualizações sobre esse e outros casos de regularização do comércio ambulante em São Paulo. Compartilhe este artigo para que mais pessoas conheçam a história dos comerciantes da Praça Silvio Romero.
Referências
Metrópoles — Comerciantes e moradores lamentam “despejo” de food trucks em praça G1 — Sistema da Prefeitura de SP bloqueia cadastro de ambulantes em áreas mais lucrativas, diz estudo (março/2026) Câmara Municipal de São Paulo — Comércio ambulante: Programa “Tô Legal” é debatido em Audiência Pública Portal da Câmara Municipal de SP — Sampa e Você: entenda o que é o Programa Tô Legal Gazeta do Tatuapé — Sub Mooca intensifica fiscalização e faz apreensões na Praça Sílvio Romero







