Lucro recorde no 1º trimestre não foi suficiente para conter a queda dos papéis na B3
As ações do Banco Inter (INBR32) acumulam forte queda na B3, com recuo de cerca de 19% nos últimos 30 dias e desvalorização superior a 30% no acumulado de 2026. O mercado passou a questionar não apenas os resultados do banco, mas também o modelo de gestão e os altos gastos com remuneração de executivos.
O que está derrubando as ações do Inter
O estopim recente do “mau humor” do mercado foi um número que até então passava despercebido: quanto a instituição paga à sua cúpula.
Segundo cálculo apresentado por um gestor e divulgado pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, o banco desembolsa cerca de R$ 110 milhões por ano em remuneração de executivos.
Esse valor equivale a aproximadamente 8% do lucro líquido de R$ 1,4 bilhão registrado em 2025.
A comparação que incomodou o mercado
Para dar dimensão ao problema, o gestor colocou o Inter ao lado do Mercado Livre. Veja a comparação:
| Indicador | Banco Inter | Mercado Livre |
|---|---|---|
| Valor de mercado aproximado | R$ 10 bilhões | R$ 420 bilhões |
| Remuneração anual de executivos | R$ 110 milhões | R$ 150 milhões |
| Proporção sobre o lucro | Cerca de 8% | Muito menor |
O ponto central é a proporção: mesmo sendo 42 vezes maior, o Mercado Livre paga um valor próximo ao do Inter. Ou seja, o banco destina uma fatia muito maior de sua geração de caixa para a gestão.
Atualização: orçamento aprovado em assembleia para 2026 prevê até cerca de R$ 165 milhões (US$ 29,9 milhões) para a alta cúpula, segundo apuração da imprensa, o que pode ampliar ainda mais o debate.
A análise do canal TMC News Br
O tema foi debatido em profundidade pelo canal TMC News Br, em conversa com o analista Guilherme Ravach, que destacou que a questão vai além do salário dos executivos.
Para o analista, a remuneração é apenas uma peça de um quebra-cabeça maior que pressiona os papéis do banco mineiro.
Os fatores que vão além da remuneração
De acordo com a análise apresentada no vídeo, há ao menos três questões estruturais que pesam contra o Inter.
1. Piora na perspectiva de crédito
O custo de financiar o crédito está aumentando para o banco. Na prática, isso pode significar mais gastos com captação e publicidade, além de risco de inadimplência.
Atualização: o Citi rebaixou a recomendação da ação de “compra” para “neutra” e cortou o preço-alvo de US$ 12 para US$ 6,50, citando aumento do custo do risco e pressão sobre a margem líquida de juros.
2. Falta de posicionamento claro
Segundo relatório do BTG mencionado na análise, o Inter não tem um lugar definido no mercado. A leitura é a seguinte:
- O PicPay é percebido como banco digital mais barato.
- O Nubank ocupa o espaço de banco digital mais premium.
- O Inter fica em uma posição intermediária, sem identidade clara.
Além disso, o banco perdeu parte da vantagem que tinha como principal beneficiário do crédito consignado.
3. A distância para o plano 60-30-30
O plano estratégico do Inter, batizado de “60-30-30”, prevê:
- 60 milhões de clientes
- 30% de índice de eficiência
- 30% de ROE (retorno sobre o patrimônio líquido)
Correção importante: no vídeo, há uma menção a “60 bilhões de clientes”, mas o número correto da meta é 60 milhões de clientes.
O desafio do ROE: a matemática que o mercado questiona
O ROE (Return on Equity) mede quanto um banco ganha em relação ao próprio capital. É um dos indicadores mais observados do setor.
Para comparação, o Itaú opera com ROE próximo de 25%. O Inter promete chegar a 30%, mas hoje está em outro patamar.
Atualização de dados: no 1º trimestre de 2026, o Inter registrou ROE de 15,5%, com lucro líquido recorde de R$ 395 milhões (alta de 38% na comparação anual) e 44 milhões de clientes. Ou seja, a distância até a meta de 30% segue grande.
A meta foi adiada e ganhou nova métrica
Aqui está uma das atualizações mais relevantes desde a gravação do vídeo.
Em maio de 2026, durante o Owners’ Day, a administração do Inter reconheceu um caminho mais lento: a meta de 30% de ROE foi postergada de 2027 para 2029. O banco também apresentou a “Regra dos 50”, inspirada na “Rule of 40” das empresas de tecnologia, somando crescimento de receita e rentabilidade.
Na ocasião, as ações chegaram a cair de 6% a 7%, sinal de que parte dos investidores interpretou a mudança como uma diluição da narrativa original.
Visões divergentes entre as casas de análise
Vale destacar que nem todo o mercado enxerga o Inter da mesma forma. As recomendações se dividem:
- Citi: rebaixou para “neutra”, vendo riscos crescentes de execução.
- BTG Pactual: manteve recomendação de “compra”, apostando na continuidade da expansão do ROE.
- XP: leitura mais cautelosa, citando uma trajetória mais lenta de rentabilidade.
O que isso significa para o investidor
Para quem investiu na ação ao longo de 2026, a desvalorização de mais de 30% representa uma perda significativa. Esse é o tipo de cenário que reforça a importância de diversificação e de entender bem os fundamentos antes de investir.
O episódio também serve de lição sobre educação financeira e gestão de risco. Se você quer começar do começo, vale conhecer estratégias de longo prazo, como ensinar a importância do dinheiro desde cedo, abordada em nosso conteúdo sobre educação financeira desde a infância.
Chamada para ação
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Conclusão
A queda das ações do Banco Inter reflete uma combinação de fatores: a remuneração elevada dos executivos em relação ao porte da empresa, a piora na perspectiva de crédito, a falta de posicionamento claro e a distância em relação às metas ambiciosas de rentabilidade.
O lucro recorde do primeiro trimestre mostra que nem tudo é negativo. No entanto, o adiamento da meta de ROE para 2029 e o rebaixamento por parte de algumas casas de análise ajudam a explicar a cautela do mercado.
O futuro dos papéis dependerá da capacidade do Inter de provar, trimestre a trimestre, que sua escala realmente se converterá em rentabilidade consistente, comparável à dos grandes bancos tradicionais.
📚 Referências
- O Globo / Lauro Jardim — A remuneração dos executivos do Banco Inter
- Times Brasil / CNBC — Sob pressão, Inter vê remuneração de executivos virar alvo de investidores
- Estadão / E-Investidor — Balanço do Inter não convence Citi, que corta recomendação
- Seu Dinheiro — Banco Inter reage à queda das ações com a “Regra dos 50”
- XP Investimentos — Banco Inter: ambição de longo prazo reafirmada, mas por um caminho diferente
- A Revista — Banco Inter (INBR32) cai 19% em 30 dias e remuneração aumenta pressão na Bolsa







