De “vão para a Flórida” a “voltem por favor” – O Paralelo entre Hochul e Haddad: Quando Tributar os Ricos Sai Pela Culatra
A governadora de Nova York, Kathy Hochul, virou alvo de críticas nos Estados Unidos após pedir publicamente que residentes ricos que migraram para a Flórida voltem ao estado. O apelo, feito em março de 2026, contrasta diretamente com a fala dela em 2022, quando mandou republicanos “pegarem um ônibus” e irem embora para a Flórida. O caso reabre o debate sobre os efeitos do aumento de impostos sobre os mais ricos e a fuga da base tributária.
O que aconteceu: a virada de 180 graus de Kathy Hochul
Em agosto de 2022, durante um comício de campanha, Kathy Hochul atacou opositores republicanos com a frase que ficou marcada: “a era de Trump, Zeldin e Molinaro — pulem em um ônibus e vão para a Flórida, onde vocês pertencem. Vocês não são nova-iorquinos.” A declaração foi amplamente divulgada e marcou o tom combativo da então candidata, que defendia mais impostos sobre os mais ricos.
Quase quatro anos depois, em 11 de março de 2026, durante o Politico New York Agenda Albany Summit, Hochul mudou completamente o discurso. Ela afirmou que o estado precisa de pessoas com “alta renda líquida” para sustentar os programas sociais e pediu aos milionários que ainda vivem em Nova York que “vão a Palm Beach e tragam de volta quem puderem para casa”.
Análise do canal Atlas Geopolítico sobre o caso
O canal Atlas Geopolítico destacou o tom quase humilde do novo apelo da governadora e comparou o cenário americano com o brasileiro, em que medidas de aumento de tributação sobre os mais ricos têm provocado reações semelhantes — incluindo migração de capital e pessoas para países com carga tributária menor, como o Paraguai.
Os números da fuga: quanto Nova York perdeu
Os dados são contundentes e ajudam a entender o motivo da mudança de discurso. Segundo a Citizens Budget Commission (CBC), comissão independente de orçamento de Nova York:
- A cidade de Nova York perdeu 102 mil residentes e US$ 13,7 bilhões em renda pessoal apenas para a Flórida entre 2018 e 2022.
- O Empire Center, com base em dados do Censo dos EUA, aponta que o estado perdeu 238 mil habitantes entre 2020 e 2024, queda de 1,2% — enquanto a população dos EUA cresceu 2,6% no mesmo período.
- Os destinos preferidos foram justamente Flórida, Texas e Califórnia, sendo que Flórida e Texas não cobram imposto de renda estadual.
Como funciona a tributação em camadas nos EUA
Para entender o tamanho do problema, é preciso lembrar que, nos Estados Unidos, o cidadão pode pagar até três camadas de imposto de renda:
| Tipo de imposto | Aplicação | Exemplo |
|---|---|---|
| Federal | Pago em todo o país | Obrigatório para todos |
| Estadual | Varia por estado | Flórida e Texas: zero |
| Municipal | Varia por cidade | Nova York cobra extra |
Quem mora na cidade de Nova York paga os três níveis. Já quem se muda para a Flórida elimina dois deles. Esse diferencial, somado ao avanço do trabalho remoto, explica por que a migração se acelerou nos últimos anos.
O efeito do trabalho remoto sobre a base tributária
Em sua fala de 2026, Hochul reconheceu publicamente algo que muitos analistas já apontavam: o trabalho remoto mudou o jogo. Antes da pandemia, profissionais que atuavam em grandes empresas de Nova York precisavam morar fisicamente na cidade. Hoje, esses mesmos profissionais podem trabalhar para empresas sediadas em Manhattan vivendo em Miami, Tampa ou Austin.
Isso significa que a “prisão geográfica” que sustentava parte da arrecadação simplesmente desapareceu. O fenômeno não atinge apenas os multimilionários — afeta também a classe média alta, que historicamente compõe boa parte da base tributária estadual.
A pandemia transformou definitivamente a relação entre trabalho, localização e renda, e os efeitos disso seguem reconfigurando economias inteiras.
Mamdani e o “imposto pied-à-terre”: mais combustível para a fuga
Enquanto Hochul tenta atrair os ricos de volta, o prefeito recém-eleito da cidade de Nova York, Zohran Mamdani, anunciou novos impostos para fechar o buraco orçamentário de cerca de US$ 5,4 bilhões. Entre as medidas está o chamado pied-à-terre tax — taxa sobre apartamentos de alto valor pertencentes a pessoas que não moram permanentemente em Nova York.
Críticos apontam que a medida tende a piorar o problema: proprietários podem simplesmente vender, transferir imóveis para empresas ou substituir hospedagem fixa por hotéis. O resultado pode ser arrecadação menor do que o esperado, repetindo um padrão clássico de políticas que tentam tributar quem tem maior mobilidade.
O paralelo com o Brasil: Pix, lucros e fuga de capital
O caso de Nova York reacende um debate que também ocorre no Brasil. Medidas recentes — como a tentativa de taxação do Pix, o aumento da tributação sobre lucros e dividendos e a constante elevação de tributos federais — têm sido apontadas por especialistas como possíveis aceleradores da migração de empresas e pessoas físicas para países vizinhos como o Paraguai.
Vale destacar a discussão sobre o retrocesso da taxação do Pix e a polêmica nova taxação de 10% sobre lucros distribuídos, ambas com efeitos colaterais semelhantes aos vistos em Nova York.
O caso brasileiro do imposto sobre dividendos
Atualização: dados recentes mostram que a arrecadação do imposto sobre dividendos no Brasil ficou muito abaixo do esperado pelo governo, repetindo o padrão observado em outros países onde a tributação sobre os mais ricos gerou efeito reverso — fuga de capital, planejamento tributário e queda na base de contribuintes.
Por que aumentar imposto pode reduzir a arrecadação
Economistas apontam alguns motivos clássicos pelos quais subir imposto sobre os mais ricos nem sempre gera o resultado esperado:
- Mobilidade: ricos têm mais opções de residência, inclusive internacionais.
- Planejamento tributário: usam estruturas societárias e jurídicas para reduzir tributos.
- Trabalho remoto: profissionais altamente qualificados não dependem mais de cidade específica.
- Concorrência fiscal: estados e países com cargas menores atraem investimentos.
- Curva de Laffer: a partir de certo ponto, alíquotas maiores reduzem arrecadação total.
Hochul, ironicamente, reconheceu o ponto 4 ao afirmar: “Estamos competindo com outros estados que têm impostos menores tanto para empresas quanto para pessoas físicas.”
O que o caso ensina
O episódio nova-iorquino é mais do que uma história curiosa de mudança de discurso político. Ele oferece uma lição prática para qualquer governo que dependa fortemente de tributação concentrada nos mais ricos: a base tributária pode evaporar mais rápido do que se imagina, especialmente em um mundo de trabalho remoto, moeda digital e mobilidade global.
A frase reativada de 2022 contra a frase humilde de 2026 mostra um descompasso entre retórica de campanha e realidade fiscal. Para o eleitor americano — e para o brasileiro que observa o cenário — fica o alerta de que decisões tributárias têm consequências de longo prazo nem sempre previstas pelos governos.
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Conclusão
O pedido de Kathy Hochul para que os ricos voltem a Nova York é um case real, documentado e com dados oficiais que comprovam a erosão da base tributária após anos de retórica anti-rico. Mais do que ironia política, o caso é um exemplo concreto de como políticas fiscais agressivas, num mundo onde o capital e o trabalho são móveis, podem comprometer justamente o que pretendiam proteger: o financiamento dos serviços públicos. O Brasil — onde debates similares se intensificam — tem muito a aprender com o que aconteceu em Nova York.
📚 Referências
- Reason — New York Gov. Hochul begs ‘high-net-worth’ refugees to return and be taxed
- NY1 / Spectrum News — Hochul says new taxes could drive wealthy out of N.Y.
- Washington Examiner — Hochul says GOP rivals don’t belong in New York: ‘Jump on a bus and head down to Florida’ (2022)
- City & State New York — Hochul doubles down on telling GOP candidates to leave New York
- Citizens Budget Commission — Relatório sobre migração e perda de receita em NY
- Empire Center — Análise demográfica do estado de Nova York (Censo dos EUA)







